PROMOÇÃO

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Haddad e Manuela seriam bons candidatos se não fossem vices de Lula

Foto: Fotos Públicas/ Ricardo Stuckert

Pela primeira vez os dois “vices” do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Haddad e Manuela D’Ávila, apareceram publicamente juntos depois do acordo para unir PT e PCdoB na corrida presidencial de 2018. A união foi selada apenas na noite de domingo, quando o prazo para a realização de convenções se encerrava e quando não havia mais espaço para negociações políticas. A situação criou então um Frankenstein político. Um candidato preso, com chances reais de não ter o registro de candidatura deferido por ter uma condenação em segunda instância, com dois vices – em um país que teve três vices assumindo o Palácio do Planalto em um espaço de 30 anos.

A jogada de Lula ao escolher Haddad era aguardada há muito tempo. O ex-prefeito de São Paulo sempre foi o plano B principal e insistir na tese de candidatura do ex-presidente serve apenas para reiterar a avaliação da esquerda que a condenação é ilegal. Em alguns momentos, o grupo chegou a flertar com uma eventual candidatura do ex-governador da Bahia, Jaques Wagner, porém o prejuízo de deixar uma eleição praticamente garantida ao Senado para arriscar uma corrida ao Planalto não valeria a pena.

Ainda assim há um quê de surpresa na articulação em torno do PCdoB, que até a última semana mantinha com unhas e dentes, “lutando como uma mulher”, a candidatura de Manuela D’Ávila à Presidência. Os comunistas são coadjuvantes do PT desde sempre e, quando havia a expectativa de descolamento da imagem, acontece o recuo que coloca Manuela no banco de reserva das vices.

A promessa do PT é de que a comunista assuma o posto de vice independente do deferimento ou não da candidatura de Lula na Justiça Eleitoral. É uma reserva de luxo, mesmo que nas pesquisas Manuela patine tanto quanto Haddad ou outros nomes da esquerda. A presença dela no debate eleitoral trouxe, por exemplo, uma discussão mais aprofundada sobre o feminismo após a deposição da primeira presidente mulher da história do Brasil. Porém a necessidade de protagonismo do PT impediu que fosse ela alçada à condição de candidata com apoio de Lula.

Se o contexto fosse outro, a chapa entre Haddad e Manuela – a mais provável de ir para as urnas em outubro – seria considerada favorita para disputar uma vaga no segundo turno. Não pelo endosso de Lula ou por apenas reunir os espectros mais à esquerda da cena brasileira. Mas por representarem, simbolicamente, a novidade num cenário cujos atores políticos estão desgastados pelas próprias ações.

Ocorre que, com o antilulismo e o antipetismo atingindo uma parcela expressiva da sociedade, a dobradinha PT-PCdoB pode naufragar nos próprios riscos assumidos pela megalomania de Lula, que desidratou a candidatura de Ciro Gomes para manter o petismo como única voz autorizada da esquerda a participar de uma eleição com uma candidatura competitiva. Porém a escolha foi feita e é pública. Agora a esquerda precisará lidar com as consequências de uma eventual derrocada da estratégia.

Haddad é um bom nome. Manuela também. Juntos poderiam facilmente dar nova vida aos planos da esquerda brasileira de retomar o poder em 2018. Como vices do ex-presidente, todavia, parecem enterrar as chances de um debate sadio com a direita sobre os rumos do Brasil. E, sob a sombra de uma onda de conservadorismo, ambos podem ser apenas espectadores privilegiados de uma disputa sem a presença esquerda no segundo turno. Por culpa de Lula, frise-se.

Este texto integra o comentário desta quarta-feira (8) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior, Irecê Líder FM e Clube FM.

por Fernando Duarte

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