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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

FHC foi o melhor ministro da Fazenda que o país já teve, diz ex-assessor do PT

Foto: Wikimedia Commons

O exercício do poder visto pelo cargo mais complexo da máquina pública (o de ministro da Fazenda), ou "Pior Emprego do Mundo", como descreve o jornalista Thomas Traumann em livro a ser lançado na próxima semana.

O texto reúne os principais desafios de política econômica enfrentados pelos ministros da área desde o fim da década de 1960, assim como a relação marcada por tensão com os respectivos presidentes. Os principais ocupantes do cargo foram entrevistados, com exceção de Pedro Malan.

No governo Dilma entre 2011 e 2015, Traumann avalia que o ministro da Fazenda de um eventual governo Fernando Haddad (PT) seria mais parecido com Antonio Palocci do que com Guido Mantega,. E não hesita ao dizer que o melhor ocupante do cargo foi Fernando Henrique Cardoso.

Pergunta - Por que se almeja tanto o pior emprego do mundo?
Traumann - Alguns acham que podem consertar as coisas, como o Bresser [governo Sarney], que tinha estudado inflação. Outros pelo partido, como o Antonio Palocci. E há, lógico, a vaidade.

O Delfim Netto é o nosso grande personagem?
Traumann - O Mário Henrique Simonsen [governo Geisel] funcionou por um bom tempo como contraponto ao próprio Delfim, atacou o congelamento de preços no Sarney, é consultado pelo Collor e é um dos sujeitos que dá aval ao Plano Real, até porque tinha sido professor de teóricos do plano.
Delfim, por ser mais longevo, é há mais tempo uma espécie de ombudsman dos ministérios da Fazenda.

Por que o papel do ministro da Fazenda extrapola o cargo?
Traumann - O ministro da Fazenda é poderoso. Do patrocínio da Caixa à time de futebol ao preço da passagem de ônibus, tudo passa pela mesa do ministro.

Os ministros não entendem a pressa dos políticos?
Traumann - É uma relação tensa, as agendas são muito distantes. O próximo ministro tem um problema fiscal gigante e 13 milhões de desempregados. O presidente vai querer imprimir a sua marca, crescer. Enquanto um tem 10, 20 índices para tratar todos os dias, o outro só tem um: a popularidade.

O mercado financeiro volta a pressionar a esquerda?
Traumann - Em 2002, o nervosismo era maior. O Brasil chegou a fazer acordo com o FMI, o presidente chamou os candidatos para dar uma espécie de aval. O mercado estimou um dólar altíssimo, superado. Lula fez uma carta aos brasileiros que não teve resultado algum nos dias seguintes. Nossa memória diz que o problema foi resolvido ali, mas não foi. O mercado não estava nem aí para ela. Mas faz parte do jogo. O que faz o mercado? Pressiona.

O sr. cita a parceria incomum entre Mantega e Meirelles. Dá para falar o mesmo de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes?
Traumann - Ali eu falava de duas pessoas de economia. Um presidente do BC muito ortodoxo e um ministro muito heterodoxo. Aqui é o presidente.

Um presidente eleito, no pior cenário, tem 48, 49 milhões de votos. Bolsonaro vai delegar isso? Se for eleito, haverá tensão muito grande em relação a quanto ele vai conceder. Afinal de contas, os votos serão dele e não do Paulo Guedes.



Num eventual governo do PT, o ministro estará mais para Mantega ou Palocci?
Traumann - Se olhar só o programa do PT seria Mantega. Pelo perfil do Haddad, diria que será mais parecido com Palocci.

Quem seria um bom ministro da Fazenda?
Traumann - Acho que terá que ter negociação muito próxima com o Congresso mais poderoso da história.

Quem foi o melhor ministro da Fazenda?
Traumann - O FHC, que usou a política a favor da economia. Usou a fraqueza do Congresso, em razão da CPI do Orçamento, para conseguir fazer um ajuste fiscal de cara. E a própria candidatura para fazer com que o PFL e o PSDB apoiassem suas medidas. O Palocci consegue autonomia do Lula para montar uma equipe que não tinha votado no PT e uma retomada em curto período. O que é também fundamental.



E o menos sintonizado?
Traumann - Maílson da Nóbrega [Sarney] enfrentou situação calamitosa de inflação de 40% ao ano. Tem o fim do governo Dilma, com apostas como manter o Mantega.

O sr. deixou o governo Dilma após vazarem críticas suas à comunicação. Foi uma boa hora?
Traumann - Queria ter deixado logo depois das eleições. Já tinha dado como experiência.

Uma inspiração foi tentar explicar o Brasil a sua irmã, que morava fora. O que diria a ela hoje?

Traumann - De tédio não morreremos.


por Flavia Lima | Folhapress

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