segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

'Coloquem-se do lado do povo que passa fome', pedem desertores aos outros militares da Venezuela

Três sargentos venezuelanos cruzaram a fronteira com o Brasil. Eles esperam se reunir com o autoproclamado presidente interino, Juan Guaidó.

Militares venezuelanos que desertaram para o Brasil mostram suas identidades em Pacaraima, em Roraima — Foto: Emily Costa/G1

Os três militares venezuelanos que desertaram para o Brasil neste fim de semana pediram aos companheiros de farda que deixassem de apoiar o regime de Nicolás Maduro. "Que se coloquem do lado do povo, porque o povo está passando fome", disse o sargento Carlos Eduardo Zapata a jornalistas neste domingo.

Três militares da Guarda Nacional Bolivariana desertaram pela fronteira da Venezuela com o Brasil. Dois sargentos chegaram na noite de sábado e estão alojados no abrigo para refugiados de Pacaraima, disse o coronel do Exército brasileiro Georges Feres Kanaan neste domingo. Outro sargento chegou pela manhã, por meio de uma rota clandestina.

O sargento primeiro, Carlos Eduardo Zapata, disse que chegou por uma rota clandestina — Foto: Emily Costa/G1

Também no sábado, mais de 60 abandonaram o próprio país para a Colômbia, em uma dia de confrontos entre apoiadores do presidente venezuelano e opositores.

Zapata, um dos três a desertar ao Brasil, relatou que um sobrinho dele morreu há cinco dias por falta de medicamentos.

"Nós, a tropa profissional, queremos que os nossos companheiros se unam. Se não podem fazer nada na Venezuela, que venham para o Brasil ou saiam para a Colômbia", pediu Zapata.

Perguntados sobre qual ordem recebiam para lidar com manifestantes, o sargento Jorge Luis Gonzales Romero respondeu: "Ninguém cruza a fronteira, nem veículo". Se alguém tentasse cruzar, segundo ele, a orientação era "chamar a atenção e retirá-lo dali".

Nesta segunda-feira (25), a fronteira permanece fechada e o clima é tranquilo. Do lado brasileiro, a Polícia Rodoviária Federal não impede a passagem de pessoas, mas evita aglomerações. O cordão que havia sido montado pelos agentes da Força Nacional para evitar confrontos foi desmobilizado.

Lado brasileiro da fronteira com a Venezuela na manhã desta segunda-feira (25) — Foto: Emily Costa/G1

'Cansados' de Maduro, pedem apoio a Guaidó


O sargento Jean Carlos Cesar Parra, é um dos militares que desertaram neste domingo (24) — Foto: Emily Costa/G1

Os três sargentos repudiaram o regime de Nicolás Maduro, a quem eles disseram considerar um "usurpador de um cargo que não é dele".

"Não podemos mais aceitar a ditadura de Nicolás Maduro e sua gente. Nós nos cansamos disso. Somos conscientes da necessidade que sofre o povo venezuelano e a Venezuela", desabafou o sargento Jean Carlos Cesar Parra.


montagem com fotos de Nicolás Maduro e Juan Guaidó — Foto: Yuri Cortez/AFP


O trio também reiterou apoio ao autoproclamado presidente interinoJuan Guaidó. "Queremos nos encontrar com ele", disse o sargento Gonzales Romero. Eles ainda pediram para se reunir com outros dissidentes venezuelanos na Colômbia e no Brasil – perguntados, os três não souberam dizer se outros militares desertaram para o território brasileiro.

"Há outros que querem sair. Não é fácil. Tem que ter coragem", acrescentou o sargento Cesar Parra.

Ajuda humanitária frustrada e confrontos


Mulher segura uma faixa que diz "Liberdade" em Pacaraima (RR), na fronteira Venezuela com o Brasil — Foto: Bruno Kelly/Reuters

As deserções de militares venezuelanos ocorreram no chamado Dia D, quando a oposição, comandada pelo autoproclamado presidente Juan Guaidó, tentou fazer com que o regime de Maduro permitisse a entrada de ajuda humanitária por meio das fronteiras com o Brasil e a Colômbia.

As duas tentativas foram frustradas, e houve confrontos. Segundo o governo colombiano, 285 pessoas ficaram feridas nos embates ocorridos na fronteira com a Venezuela. Dois caminhões com ajuda humanitária foram incendiados e outro teve a carga retirada para evitar que fosse perdida.

Confronto entre manifestantes e integrantes da segurança da Venezuela, em Pacaraima (24) — Foto: Ricardo Moraes/Reuters


No Brasil, os dois primeiros caminhões com alimentos e remédios chegaram até Pacaraima no sábado (23), mas não puderam entrar na Venezuela e foram recolhidos. Após a retirada deles, venezuelanos que estavam do lado brasileiro atacaram uma base venezuelana no território do país vizinho.


Os militares venezuelanos reagiram e segundo o coronel Jacaúna, comandante da Operação Acolhida, lançaram bomba de gás e dispararam com arma de fogo, inclusive contra o território brasileiro.

Veja o que ocorreu no fim de semana

Sábado (23)

As fronteiras da Venezuela com o Brasil e a Colômbia ficaram fechadas durante todo o fim de semana e frustraram as tentativas de entrega de ajuda humanitária.Venezuelanos protestaram e atacaram uma base do exército venezuelano na fronteira com o Brasil após 2 caminhonetes com comida não conseguirem entrar no país 3 pessoas morreram em protestos em Santa Elena, cidade venezuelana a 15 km da fronteira com o Brasil. Na fronteira com a Colômbia, 2 caminhões com ajuda humanitária foram incendiados, segundo o governo colombiano. Maduro afirmou em discurso que não era mendigo, rompeu relações diplomáticas com Colômbia e disse que estava disposto a comprar toda comida que o Brasil quiser vender. Guaidó voltou a apelar a militares para que eles retirem o apoio ao presidente da Venezuela: "Vocês não devem lealdade a quem queima comida"

Domingo (24)

O Brasil condenou os confrontos na fronteira da Venezuela e o "caráter criminoso do regime Maduro"
A Colômbia fechou por 2 dias parte da sua fronteira com a Venezuela, onde ocorreram os confrontos de sábado, para "avaliar danos".
Manifestantes voltaram a entrar em confronto com militares venezuelanos na fronteira do Brasil com a Venezuela
3 militares venezuelanos desertaram pela fronteira em Pacaraima.
Um prefeito venezuelano fugiu pela mata, disse ser perseguido pelo governo Maduro e denunciou 25 mortes em áreas da Venezuela perto do Brasil.
A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos condenou a violência nas fronteiras da Venezuela e pediu que o regime Maduro repudie as ações.

Por Emily Costa, G1 RR — Pacaraima

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