sexta-feira, 22 de março de 2019

Temer é troféu simbólico para Lava Jato, mas não há motivos para comemorar a prisão

Foto: G1

Nada fora do esperado. Assim podemos resumir a operação da Polícia Federal que prendeu nesta quinta-feira (21) o ex-presidente Michel Temer. O emedebista era um provável alvo de pedido de prisão desde que deixou o Palácio do Planalto, em 1° de janeiro. No entanto, o ato está longe de ser uma "barbaridade", como o próprio Temer definiu a um jornalista, ao telefone, ao mesmo tempo em que era conduzido pelos policiais. 

Entre os emedebistas de grosso calibre, restam poucos fora das grades. Já veem o sol quadrado figuras como Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves e Geddel Vieira Lima. A cúpula decisória do MDB de poucos anos atrás foi completamente dissipada e o partido, que fora símbolo da redemocratização com Ulysses Guimarães, ficou reduzido a alguns gatos pingados no Congresso Nacional. Talvez o único que ainda mantenha sobrevida política seja Renan Calheiros, que saiu pequeno - para não dizer diminuto - da eleição do Senado.

Voltemos a Temer. Desde a revelação da conversa entre o então presidente da República, nos porões do Jaburu, com Joesley Batista, do grupo JBS, não era exercício de imaginação prever que ele chegaria a ser preso num futuro próximo. Em 2017, quando aconteceu a divulgação da conversa, Temer acabou blindado pelo sistema político - simbiótico ao próprio ex-presidente. Acontece que, ao fim da prerrogativa de foro, o Marcelo Bretas não perderia a oportunidade de ostentar a prisão de um "corrupto" clássico como novo troféu da Lava Jato. Foi a cena vista e revista durante todo o dia de ontem.

Para uma parcela expressiva da classe política, Temer sempre soube se aproveitar das oportunidades que teve. Vide a ascensão dele ao Planalto após o impeachment questionável de Dilma Rousseff. Porém, na lógica do status quo desse grupo, não havia "pecado" nas ações dele. Era uma espécie de contrapartida pelos "serviços prestados" à nação, característica compartilhada até mesmo com o agora adversário e companheiro de cárcere Luiz Inácio Lula da Silva. É como se os mal feitos não fossem crime. Apenas uma interpretação pouco ortodoxa da lei, cujas brechas fazem os fins justificarem os meios.

Agora, está confirmada a prisão preventiva de Temer - até que eventualmente haja um milagre da interpretação diversa da lei que o coloque livre. Não duvidemos que isso vá acontecer, mesmo porque em instâncias superiores os juízes não brincam de ser heróis da nação tanto quanto Sérgio Moro fazia ou Marcelo Bretas ainda faz. No máximo agem como anti-heróis, tal qual Gilmar Mendes. Talvez a pergunta a ser respondida não seja apenas se Temer merecia ser preso, mas até quando ele deve ficar preso. E esse exercício de futurologia eu não conseguiria fazer.

Por mais que haja tantos a comemorar a prisão de Temer, tantos quanto fizeram com a de Lula ou prometem fazer com a possibilidade de que Dilma esteja à baila, não é o momento para falar que o Brasil vai bem. Dos ex-presidentes ainda vivos, dois estão presos. Outros três são citados nos mais diversos casos de irregularidades, Dilma, Fernando Henrique Cardoso e José Sarney. O último é Fernando Collor, que chega a ser hors concours em improbidades, mas que segue fora dos circuitos dos justiceiros de plantão. 

Depois de tantas decepções, o povo brasileiro poderia estar vacinado. Mas nem isso parece acontecer, visto que há a defesa cega de políticos de estimação, como uma espécie de "malvado favorito". Temer é apenas mais um no cabedal de ilusões que só a política nos proporciona. E colocá-lo atrás das grades pode até saciar a sensação de que o Brasil vai mudar. Porém, tenhamos certeza, ela vai passar.

Este texto integra o comentário desta sexta-feira (22) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior, Irecê Líder FM, Clube FM e RB FM.



por Fernando Duarte

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