sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Investidores cearenses perdem R$ 10 milhões e acusam gestora de golpe; empresa não tinha autorização para operar valores

Corretora alegou ter tido prejuízo de 75,27% do total aplicado e encerrou as atividades.


Um grupo de investidores no Ceará foi surpreendido após perder 75% dos valores aplicados em uma gestora de valores mobiliários. Mais de 50 cearenses encontrados pelo G1 apontaram um prejuízo de mais de R$ 10 milhões gerado pela atividade da Miner Investimentos, que operava em todo o país.

Mas não foram apenas os clientes da corretora no Ceará que tiveram os recursos subtraídos. No dia 5 de agosto, a Miner enviou um e-mail a todos os membros da plataforma de investimentos afirmando que havia firmado um acordo com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para encerrar as atividades, e que decisões relacionadas aos investimentos a fizeram "realizar um prejuízo de 75,27%" do total aplicado.

A Miner possuía uma carteira que somava, segundo documentos adquiridos junto à CVM, cerca de R$ 120 milhões. A empresa e os sócios dela, no entanto, não tinham autorização da Comissão de realizar a "administração de carteira de valores mobiliários".

O primeiro pedido de esclarecimentos feito pela CVM à Miner Investimentos ocorreu em maio deste ano, referente a duas denúncias de clientes sobre a forma de atuação da empresa. A partir do primeiro contato com a Comissão, a Miner enviou uma série de documentos para explicar como estava operando. No dia 30 de julho, contudo, a empresa confirmou à CVM que encerraria as atividades. Os clientes ficariam sabendo da decisão apenas 7 dias depois.

Em nota, a Miner Investimentos justificou o prejuízo dos recursos por um golpe "perpetrado" por outra empresa, que também não tinha permissão para operar serviços de investimento.

"Os ativos tiveram variação negativa de 75,27% por conta de um golpe perpetrado contra a Miner pela JJ Invest, que lesou milhares de investidores no Brasil. Uma ação judicial é movida pela Miner na Justiça do Rio de Janeiro contra a JJ Invest para recuperar os valores e repassá-los aos cotistas. Enquanto isso não ocorre, os recursos disponíveis — relativos a 24,73% dos ativos — estão sendo repassados às contas dos cotistas", disse a Miner.

O processo contra a JJ Invest tramita em segredo de Justiça. A reportagem procurou a JJ para obter esclarecimentos sobre o caso, mas não obteve sucesso.

Atuação

No Ceará, um grupo de mais de 50 pessoas relatou prejuízos. Várias delas afirmaram que a Miner atuava de forma tranquila, sempre explicando os mecanismos usados para gerenciar os investimentos. As apresentações "eram surpreendentes", afirmou uma publicitária que não quis se identificar. Ela tinha mais de R$ 20 mil aplicados com a Miner.

"Eles explicavam que nunca investiam tudo no mercado de ações e que não corriam riscos desnecessários. Os rendimentos garantidos de 2%, eles diziam que viam pela proporção de todos os aportes que eles tinham, que tudo era feito com um planejamento para assegurar os resultados. O discurso era lindo, tanto que muita gente acreditou e ainda convidou amigos e familiares”, disse a publicitária.

Outro investidor cearense, que preferiu manter o anonimato, afirmou que os sócios da Miner tinham um discurso muito atrativo. "Eles prometiam um rendimento de 2% por mês e explicavam tudo com muita clareza. Eu fiquei pensando 'se o lucro é de 2%, o prejuízo também deve ser' e por isso investi", disse.

O jovem, que está desempregado, perdeu mais de R$ 15 mil das economias pessoais. "O mais difícil é que a minha família não sabe ainda que eu investi e perdi esse dinheiro".

Parte do grupo de investidores no Ceará alega que foram enganados e que a atuação da Miner representa um golpe. No restante do país, ações contra a empresa estão sendo movidas para pedir o bloqueio dos bens.

Segundo documentos obtidos pela reportagem com a CVM, a Miner tinha uma lista de clientes com 1.339 pessoas e uma carteira de cerca de R$ 120 milhões, no Brasil.

Resposta

Sobre o ocorrido, também por meio de nota, a Miner afirmou que, "desde sua criação", informou "aos seus cotistas que os investimentos da SCP eram de alto risco, sujeitos a oscilações bruscas e a prejuízos".

"Os próprios contratos eram claros quanto à modalidade de risco dos investimentos — como aliás é alertado por qualquer corretora de valores para investimentos em ações, opções ou mercados de derivativos. Os diretores da Miner mantêm a empresa aberta, em plantão, para atender os sócios e fornecerem as explicações necessárias. Lamentam as perdas, mas permanecem à frente do negócio até que todas as pendências sejam resolvida", completa a Miner.

Por G1 CE

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