Pelo direito de deputados votarem a favor ou contra a reforma da Previdência

Foto: Andrea Marques/ Câmara dos Deputados

Desde a aprovação do texto-base da reforma da Previdência, as redes sociais foram inundadas de críticas aos deputados que votaram contra a matéria e aos parlamentares que ficaram a favor da aprovação. Muitas críticas limitadas ao “vamos lembrar disso em 2022” ou “eles querem acabar com os nossos direitos”, válidas para qualquer um dos lados da moeda. Porém, para além desse simplismo, gostaria de sair em defesa dos deputados – não que eles mereçam. É porque é injusta a forma preconceituosa com que lidamos com quem pensa diferente do que pregamos.

A esquerda, muito enfraquecida após o placar elástico costurado por Rodrigo Maia, é o maior alvo dessas provocações. Partidos como PT, PSOL e mesmo o dividido PDT precisavam marcar posição de serem contrários ao projeto e, independente de acharem a reforma necessária, iriam votar contra mesmo que o governo atendesse a todas as reivindicações. Pedir que essas legendas orientem seus parlamentares no sentido contrário é não entender como funciona a construção das forças no jogo político. Ninguém, em sã consciência, acharia que a socialista Lídice da Mata fosse a favor de um texto polêmico como o enviado por Paulo Guedes. Ou Marcelo Freixo, do PSOL do Rio de Janeiro. A posição deles é mais do que natural. É pré-concebida e será assim em muitos outros casos.

Estreante na Câmara dos Deputados, Tabata Amaral talvez esteja entre as mais questionadas por ter votado favorável à reforma da Previdência, contrariando inclusive a orientação do PDT. No entanto, não há surpresa alguma. As posturas prévias da parlamentar, muito próximas do liberalismo econômico, indicavam que a jovem não iria se opor ao projeto. É possível até reclamar que o PDT ou a esquerda não sejam a “casa” dela. Porém dizer que houve traição nesse processo é seguir o efeito manada tão criticado pelos críticos dela.

O mesmo vale para os parlamentares mais “à direita”. Em algum momento João Roma (PRB) iria ser contrário ao projeto? Ou passa pela cabeça que Arthur Maia (DEM), relator da reforma de Michel Temer, bradaria para rejeitar a matéria enviada por Jair Bolsonaro? Esses dois exemplos foram eleitos com uma plataforma que se baseia na aprovação de projetos “estruturantes”, o que incluímos a reforma da Previdência. Os votos deles são extremamente naturais, gostem eleitores da esquerda ou não.


Aclamado como o pai da aprovação da matéria, o presidente da Câmara Rodrigo Maia foi bem feliz ao dizer que não concordava com todos os pontos do texto-base aprovado, mas que aquele foi o acordo possível para que a reforma fosse votada. Democracia se constrói assim e, cá entre nós, estamos em um momento que celebrá-la é muito melhor do que nos mantermos preocupados com ela. Por isso, fico em defesa dos deputados federais e do direito que eles têm de se manifestar contra ou a favor da reforma da Previdência. Gostemos ou não da democracia, ela é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras.

Este texto integra o comentário desta sexta-feira (12) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para a rádio Excelsior.



por Fernando Duarte

About Acopiara Alerta

Tecnologia do Blogger.