Procuradores da Lava Jato temiam 'quebrar sistema financeiro' ao investigar bancos

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Procuradores da força-tarefa da Lava Jato tiveram tratamento diferenciado entre empreiteiras e bancos no que se refere a punições e investigações durante a operação, conforme conversas divulgadas nesta quinta-feira (22) pelo site The Intercept Brasil, em parceria com o El País.

Segundo a publicação, os procuradores avaliaram que uma delação do ex-ministro Antonio Palocci era inconsistente, por ser difícil comprovar tudo o que ele dizia. Ele pontuava informações privilegiadas e leis facilitadas aos bancos em troca de doações de milhões de reais em campanhas do PT.

“Os anexos precisam ser melhorados”, diziam os procuradores, em referência à proposta de delação premiada de 39 anexos que a defesa de Palocci oferecia à força-tarefa.

Mesmo com 359 menções nominais ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao longo do documento, os procuradores não foram convencidos a dar uma substância maior à delação. "Definimos que como os anexos estão sem elementos de corroboração suficientes, decidimos romper as negociações”, diz. “Ótimo. Página virada”, responde o procurador José Alfredo de Paula. As conversas em questão estão no grupo COLAB Palocci, do aplicativo Telegram, em 25 de janeiro de 2018.

A proposta de Palocci continha informações detalhadas acerca da sua relação com banqueiros como Joseph Safra (Banco Safra), Pedro Moreira Salles (na época, do Unibanco), Lázaro Brandão e Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), além do então economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, e Júlio Siqueira, vice-presidente executivo do banco, que o procuraram em 2009, quando ele exercia o mandato de deputado federal. Os dois últimos tinham o intuito de conseguir informações adiantadas do Banco Central sobre a mudança da taxa básica de juros, a Selic. Segundo o ex-ministro, ele obtinha essas informações com o então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, candidato à presidência da República na última eleição, e repassava ao Bradesco. Em troca, o banco realizou doações oficiais para a campanha de Dilma Rousseff (PT), em 2010.

MEDO DO “RISCO SISTÊMICO” 

Mesmo sem a possibilidade da delação, os procuradores apontam que tem que ser considerada a “variável” do impacto sobre os sistema financeiro ao investigar as operações ilícitas dos grandes bancos. No acordo oferecido por Palocci, por exemplo, o banco Safra aparece 71 vezes, e Bradesco outras 32. “O que nós temos a favor e que é uma arma que pode explodir é que uma operação sobre um grande banco pode gerar o tal do risco sistêmico. Podemos quebrar o sistema financeiro. Essa variável tem que ser considerada para o bem e para o mal”, escreveu o procurador Januário Paludo, em outubro do ano passado, no chat Filhos do Januário 3. “Por isso, estrategicamente, medidas ostensivas tem que ser tomadas em relação a pequenas instituições para ver o quanto o mercado vai reagir”, emendou.

Embora já fosse de conhecimento da operação as ilicitudes dos atos dos bancos, somente em maio de 2019 a Lava Jato chegou à primeira instituição bancária – a operação teve início em 2014, Na ocasião, foram presos três executivos do Bancos Paulista, acusados de lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta para beneficiar a Odebrecht. Em fevereiro, o o procurador Roberson Pozzobon comemorou a autorização judicial para essa operação. “Chutaremos a porta de um banco menor, com fraudes escancaradas, enquanto estamos com rodada de negociações em curso com bancos maiores. A mensagem será passada!”, afirma Pozzobon. Em maio, a operação também prendeu dois gerentes de uma agência do Bradesco do Rio Janeiro, também acusados de lavarem de dinheiro da Odebrecht.

Enquanto isso, o coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, lucrava com palestras a conglomerados financeiros. No dia 17 de outubro de 2018, ele deu uma palestra paga para a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) sobre prevenção e combate a lavagem de dinheiro, conforme confirmado pela entidade. Em maio do mesmo ano, ele havia sido contratado para palestrar para CEOs e tesoureiros de bancos brasileiros e internacionais, num evento organizado pela XP Investimentos. Neste caso, entre convidados, estavam representantes do Itaú, Bradesco e Santander. Dallagnol ainda participou de um encontro secreto, organizado também pela XP, com instituições financeiras.


Dois dias antes da palestra para a Fenabran, Deltan demonstrou preocupação com os rumos dados pela força-tarefa à investigação aos bancos. Estou preocupado com relação aos nossos passos em relação aos bancos”, escreve ele no chat Filhos do Januario 3. “Eu acho que eles vão se mover e vão mudar nosso cenário, via lei ou regulação (coaf, febraban…). São muito poderosos”, escreveu.

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