Consultas do presidente a outros nomes para o Ministério da Saúde levaram Luiz Henrique Mandetta avisar à sua equipe que seria demitido

WANDERSON de Oliveira (à esq.) chegou a entregar o cargo ontem, mas não teve a demissão aceita pelo ministro Mandetta

Opresidente Jair Bolsonaro começou a procurar nomes que possam substituir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, com quem tem divergido publicamente sobre a estratégia de combate ao novo coronavírus. As consultas chegaram ao conhecimento de Mandetta, que, diante da situação constrangedora, avisou a equipe que será demitido.

Ao conversar com apoiadores em frente ao Alvorada, ontem, Bolsonaro afirmou que resolverá agora a "questão da saúde" para "tocar o barco". Questionado se dispensará Mandetta, não respondeu. "Pessoal, estou fazendo a minha parte", disse. Horas depois, o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, entregou o cargo.


Porém, Mandetta e João Gabbardo, secretário executivo da pasta, não aceitaram o pedido de demissão. "Entramos no Ministério juntos, estamos no Ministério juntos e sairemos daqui juntos", disse Mandetta. Oliveira é um dos principais formuladores da estratégia adotada para combater a pandemia, com isolamento social para evitar a propagação do vírus. Bolsonaro sempre foi contra esse modelo, sob o argumento de que o "fechamento" do Brasil levará ao desemprego em massa.

O ministro admitiu haver "descompasso" entre as diretrizes da pasta e a posição de Bolsonaro. "São visões diferentes do mesmo problema. Se tivesse uma visão única seria um problema muito fácil de solucionar, mas não é." Para Mandetta, não se pode recomendar uso generalizado da cloroquina com base em "achismos".

A expectativa da demissão alimentou uma corrida entre aliados de Bolsonaro para a escolha de quem deverá comandar a Saúde neste momento de calamidade pública.

Mandetta descobriu que seria demitido após receber ligações de colegas médicos sondados para o cargo. Foi então que ele montou uma operação para anunciar sua saída a subordinados e evitar mais desgaste. "Só Deus para entender o que querem fazer", escreveu Oliveira na carta de despedida enviada aos colegas de pasta, após conversa com o ministro.

Até agora, parte da classe médica apoia o nome do oncologista Nelson Teich para a cadeira de Mandetta. Bolsonaro o receberá hoje. Um dos consultores da campanha de Bolsonaro, em 2018, Teich tem boa relação com empresários da saúde.

O argumento pró-Teich é o de que ele trará dados para destravar debates "politizados" sobre a Covid-19. Integrantes da área de saúde afirmam que a ideia não é ceder completamente a argumentos sobre o uso da cloroquina no tratamento da doença nem à abertura total do comércio - duas questões que opõem Bolsonaro e Mandetta.




O presidente do Conselho Deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein, Cláudio Lottemberg, também foi citado para o cargo. Apesar de filiado ao DEM, Lottemberg preside o Lide Saúde, grupo ligado ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), desafeto de Bolsonaro.

Na lista, a diretora de Ciência e Inovação da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Ludhmila Hajjar, foi mencionada como possível substituta do ministro. "Não recebi convite, não fui sondada. Sigo tocando minha vida normal", disse ela à reportagem.

Os nomes do deputado Osmar Terra (MDB-RS), da oncologista Nise Yamaguchi e do presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, perderam força no Planalto.

Embora a popularidade de Mandetta seja maior do que a de Bolsonaro, como indicam pesquisas, sua situação no governo é considerada insustentável desde que elevou o tom do confronto com o presidente. Perdeu, com isso, o apoio do núcleo militar do governo, que tentava segurá-lo. No Planalto, interlocutores de Bolsonaro dizem que o ministro, agora, quer posar de "vítima" e não têm dúvida de que Doria vai levá-lo para a equipe, com o objetivo de provocar Bolsonaro.

Com a saída de Mandetta dada como certa, o governo teme que uma debandada nos cargos de segundo escalão leve à paralisia do ministério em meio à pandemia. A preocupação quanto a um possível desmonte da pasta vem do 4º andar do Planalto, onde ficam os ministros militares. Eles estão mapeando quais integrantes dos escalões inferiores não são ligados umbilicalmente a Mandetta e poderiam continuar no governo.

Mandetta se reuniu ontem à tarde, em clima de despedida, com deputados que integram a comissão sobre o enfrentamento do coronavírus. Visivelmente abatido, disse que teria pouco tempo à frente da pasta. "Me desculpem por qualquer coisa aí", afirmou. (Agência Estado)