Transmissão acelera de forma acentuada em bairros da periferia enquanto na área nobre o aumento de casos perde velocidade. Deslocamento para trabalho, desigualdade social e comunicação sobre a doença influenciam na discrepânciaPor Ana Rute Ramires

Evolucao dos casos nos bairros de Fortaleza

Em seis dias, número de confirmações laboratoriais do novo coronavírus mais do que dobrou em 48 bairros de Fortaleza. Boletins publicados na última quarta-feira, 22, e nesta segunda-feira, 27, pela Secretaria Municipal da Saúde (SMS) indicam que a transmissão da Covid-19 acelera de forma acentuada em bairros da periferia. Enquanto em regiões da área mais rica — que registaram os primeiros casos da infecção na Capital — freiam a disseminação do novo coronavírus. Nos bairros Parque Santa Maria e Planalto Airton Senna, o número de casos mais do que quadruplicou. Meireles e Aldeota constam entre os menores aumentos, com crescimento de 10,50% e 12,70%, respectivamente, no período citado.

O crescimento se deve a diversos fatores. Um deles é o deslocamento para o trabalho, principalmente por parte dos moradores de áreas periféricas. Moradias com infraestrutura precária e falta de acesso a serviços, decorrentes da desigualdade social, também interferem de forma decisiva. Dentre as razões, estão inclusas ainda questões culturais de sociabilidade e a dificuldade de se transmitir informações acerca da doença em linguagem acessível por parte do poder público.




Conforme Irapuan Peixoto Lima Filho, professor do Laboratório de Estudos em Política, Educação e Cidade (Lepec) da Universidade Federal do Ceará (UFC), bairros nobres têm uma grande quantidade de condomínios e residências com demanda de serviços de porteiro, zelador, empregadas domésticas, por exemplo. "Essas famílias de maior renda não estão abrindo mão desses serviços. O trabalhador que executa esse tipo de tarefa se desloca para trabalhar e fica suscetível à contaminação. Isso ajuda a entender essa curva", diz.

As regiões que apresentam salto de casos na última semana possuem maior quantidade de "casas pequenas, pouco arejadas com poucos cômodos". Além disso, ele aponta a dificuldade em abrir mão de determinados comportamentos, "como se reunir nas calçadas". Ele elogia as medidas da Prefeitura como o diálogo com lideranças comunitárias e profissionais da atenção primária, mas frisa que o poder público deve atuar em diversas frentes. "Um material de divulgação que chegue a essa população e com uma linguagem que ela entenda. Vídeos curtos que possam circular pelo WhatsApp. Com linguagem direta e simples, ensinando como usar a máscara", exemplifica. "Para ações específicas em regiões com maior aumento de infectados, é preciso entender qual o problema específico que a região enfrenta, não algo genérico", aponta.

Ontem, 28, o Ceará chegou a 6.985 confirmações da Covid-19. Já são 417 mortes pela doença, 20 a mais que o registrado no fim da tarde de segunda-feira. Os dados são da plataforma IntegraSUS, da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), atualizada às 17h25min. Na Capital, são 5.481 diagnósticos positivos para o novo coronavírus e 329 mortes em decorrência da doença.

Diante desse cenário de disseminação, Fortaleza, bem como Manaus, deveria adotar medidas de isolamento máximo, chamada de 'lockdown', defende o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e ex-diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde durante a gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta. "Se você não tem capacidade de ter mais leitos, tem que aumentar as medidas de isolamento - e aumentar o que a gente já tem é lockdown", afirmou, em entrevista ao G1. Ele explicou que as medidas de prevenção ao coronavírus no Brasil precisam ser diferentes para cada macrorregião, considerando número da população, leitos hospitalares, estrutura para profissionais de saúde.

O POVO