De acordo com o Comitê Científico do Consórcio Nordeste, a interiorização da doença pode resultar em um fluxo de pacientes em estado grave para a capital, onde as redes pública e privada de saúde tendem a ficar rapidamente sobrecarregadas.


Colocar barreiras em todas as rodovias que ligam Fortaleza ao interior do Ceará estão entre as recomendações do comitê ao estado — Foto: Helene Santos/SVM

O Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste alerta, em seu 9º boletim, que a cidade de Fortaleza pode vir a sofrer com o chamado 'efeito bumerangue', decorrente do processo de interiorização dos casos de Covid-19, uma tendência verificada em maio e concretizada no mês de junho.

"Todas as capitais brasileiras podem se deparar com o cenário no qual uma verdadeira avalanche de casos graves, advindos do interior, voltariam a produzir uma sobrecarga dos seus sistemas hospitalares, ameaçando-os com um colapso em um intervalo de tempo muito curto", aponta o comitê.

Segundo o boletim, os casos confirmados da doença no interior do Nordeste estão dobrando em uma proporção que chega a ser duas vezes maior que as capitais. Na Grande Fortaleza, os casos dobram em aproximadamente 12 dias, enquanto que no interior do Ceará dobram em apenas 7.

O documento estende o alerta a todas as capitais do Nordeste, em especial àquelas onde houve relaxamento do isolamento social, como São Luís, Recife e a própria capital cearense que iniciou, no último dia 22 de junho, a fase 2 do Plano de Retomada Responsável das Atividades Econômicas e Comportamentais.

"Este Comitê continua vendo com extrema preocupação qualquer iniciativa de relaxamento social, tanto no Nordeste como no Brasil, que não se baseie nos critérios estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS)", diz outro trecho do documento.


O texto reconhece que o isolamento social rígido implementado em Fortaleza, o chamado 'lockdown', trouxe efeitos comprovadamente positivos para desacelerar o aparecimento de casos do novo coronavírus no estado e reduziu as taxas de ocupação de leitos de enfermaria e UTI. No entanto, o boletim indica que as curvas da doença no Ceará, Piauí e Maranhão "ainda não mostram claramente a ocorrência de um pico ou platô".


De acordo com o coordenador do Comitê Científico do Consórcio Nordeste, o neurocientista Miguel Nicolelis, o efeito bumerangue é preocupante. "Os casos foram para as capitais, depois se espalharam para o interior e começam a retornar para as capitais, como São Luis, Fortaleza e Salvador. Temos a preocupação que essa onda de casos do interior tenha efeito nas capitais", ressaltou em coletiva virtual realizada na manhã desta sexta-feira (3).

Barreiras e bloqueios em rodovias

Para evitar a propagação da doença no Ceará, especificamente, o comitê recomenda que sejam colocadas barreiras em todas as rodovias que ligam Fortaleza ao interior do estado. E ainda que haja um possível bloqueio intermitente no tráfego de carros particulares e de ônibus intermunicipais. Exceto no que se refere ao tráfego de transporte de carga essencial ou de pacientes.

Outra recomendação do comitê é a implantação de um programa estadual de Brigadas Emergenciais de Saúde voltados para "quebrar" as altas taxas de contaminação nas cidades interioranas.

Também presente na coletiva, o ex-ministro da Ciência e Tecnologia e físico Sérgio Rezende reforçou ainda a importância do uso da máscara em todo o país e da manutenção do isolamento social. "Está muito claro para a comunidade científica que, como não existe tratamento farmacológico pra combater a Covid, a única receita da ciência é o isolamento social. É importante o uso da máscara. Está comprovado cientificamente que a máscara impede que passem gotículas de uma pessoa pra outra".

Sobral tem mais de 7 mil casos

O Ceará contabiliza 118.041 casos confirmados de Covid-19, com 6.351 mortes em decorrência da doença, conforme dados da plataforma IntegraSUS, atualizados pela Secretária de Saúde às 11h14 desta sexta-feira (3). Sobral, na Região Norte, ultrapassou os 7 mil casos.

A marca de 6 mil vítimas do novo coronavírus foi ultrapassada nesta segunda-feira (29). A plataforma indica 91.230 pessoas já se recuperaram da infecção no Ceará. A letalidade da doença, proporção entre as taxas de casos e óbitos, está em 5,4%.

Fortaleza concentra os maiores índices da doença, com 36.100 diagnósticos positivos e 3.346 mortes. Segundo o Governador Camilo Santana, os números da Covid-19 continuam "melhorando" na capital. Fortaleza está na fase 2 da reabertura econômica e podem funcionar comércios, restaurantes e templos religiosos.

Camilo afirmou que a preocupação no momento é com a região do Cariri, no sul do Estado. Nesta região está a cidade de Juazeiro do Norte, que registra 2.090 casos confirmados e 104 óbitos pela enfermidade. Com o avanço da doença no sul, Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha e Iguatu adotaram o lockdown.

O isolamento social rígido também vale para Sobral, a segunda cidade em número casos do novo coronavírus, com 7.145 registros e 239 mortes. Sobral é a cidade com maior prevalência da Covid-19 no Brasil e já teve 26,4% da população infectada, segundo estudo da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL).


O estudo indica que Fortaleza tem 20,2% de prevalência de pessoas com o novo coronavírus, terceiro maior índice do país. Seguindo Fortaleza e Sobral no número de casos, estão as cidades de Maracanaú (3.837 casos) e Caucaia (3.813 casos). Na Região Metropolitana da capital, Caucaia já registrou 286 mortes pela doença e Maracanaú 215.


O IntegraSUS indica que há ainda 66.435 casos suspeitos de Covid-19, em investigação. As mortes suspeitas são 633. O Ceará já realizou 295.012 testes para confirmar a presença do Sars-CoV-2, nome do novo coronavírus.

Veja outras informações da plataforma:

A taxa de ocupação das UTIs cearenses é de 75,49%;
A taxa de ocupação das enfermarias cearenses é de 46,62%.

Os números apresentados pela Secretaria da Saúde são atualizados permanentemente e fazem referência à disponibilidade dos resultados dos testes para detectar a presença dos vírus, ou seja, não necessariamente correspondem à data da morte ou do início da apresentação dos sintomas pelo paciente.


Por Lígia Costa, G1 CE